Entrevista com Dr. Paolo Tasca

Semana passada o time do Bankera teve o prazer de encontrar e ter uma conversa com um especialista em blockchain da University College London, Dr. Paolo Tasca.

O time do Bankera entrevista Dr Paolo Tasca

Confira abaixo nossa entrevista:

Nós também preparamos a transcrição da entrevista para vocês.

Olá, amigos do Bankera! Hoje eu tenho a honra de apresentar-lhes um renomado economista, pesquisador, palestrante e escritor Paolo Tasca. Ele é o Diretor Fundador do Centro para Tecnologias Blockchain na University College London e também um conhecido conselheiro entre a comunidade de blockchain.

Olá, Paolo! É um prazer ter você aqui.

Olá, o prazer é meu.

Para começar, você poderia nos contar mais sobre sua experiência profissional?

Primeiramente, obrigado por me receber, estou muito feliz. Eu venho da área de Economia, mas tenho trabalhado com cientistas da computação, engenheiros e matemáticos por muitos anos. Eu estava me especializando em riscos sistêmicos na época da crise financeira – durante meu doutorado e pós-doutorado no Instituto Federal de Tecnologia (ETH) de Zurique no final de 2010 e em 2011, quando alguns dos meus amigos do ETH começaram a me contar sobre blockchain e Bitcoin e a partir disso eu comecei a explorar esse fascinante tópico. Inicialmente, eu estava bastante cético. Eu considerava o Bitcoin um joguinho para crianças, já que eu havia anteriormente desenvolvido uma ferramenta de trading e eu era um trader. Por isso, eu realmente não achava que isso era profissional. Eu comecei a aprender mais sobre Bitcoin e blockchain e, o que era muito importante para mim, a possibilidade de olhar para o blockchain por meio de duas lentes. A primeira me permitiu ver o blockchain de uma perspectiva de informação-comunicação-tecnologia. Nesse caso, é um sistema distribuído que permite que pares atinjam um consenso sem a necessidade de intermediários – mesmo com a presença de nós maliciosos. Essa é, basicamente, a definição do que conhecemos como blockchain. Mas o mais importante para mim era o segundo aspecto dessa nova tecnologia, que é o da governança: a capacidade dessa nova tecnologia de descentralizar a governança, de dar mais poder para a borda das redes, para trazer mais transparência ao processo de tomada de decisões. Esses, eu acho, serão os aspectos mais importantes do blockchain e que terão um impacto de longo prazo nos nossos sistemas sócio-econômicos.

Qual foi sua descoberta mais inesperada a respeito de protocolos do blockchain?

Bom, foram várias. Muito frequentemente, há divergências entre o que está escrito no white paper e o que pode ser encontrado no GitHub – e você não sabe realmente qual dos dois está correto: se o código está errado ou se o white paper está, se foi de propósito, ou um acidente, e por qual motivo. Surpresas também podem ser encontradas em famosos blockchains. Outro resultado inesperado poderia ser, por exemplo, o fato de que diversas transações enviadas para a rede Bitcoin não são realmente confirmadas depois de 1 hora – elas podem ficar lá por muitos dias sem serem confirmadas pelos pares da rede. Isso é algo muito comum para transações de pequenas quantidades, pois não há muito incentivo para que mineradores ou validadores cuidem dessas transações. Você pode achar que a transação foi validada, mas frequentemente é possível encontrar essas transações lá, navegando na rede, esperando durante dias para serem validadas. Outra coisa inesperada é a concentração dessas redes, o que é, basicamente, o lado triste dessa história sobre o blockchain. Na verdade, não se espera que essa tecnologia, que foi trazida ao mercado com a esperança de descentralizar e dar mais poder aos pares, seja na verdade extremamente centralizada, pois uma pequena porção de super mineradores controla o processo de mineração da rede Bitcoin e, no passado, em muitas ocasiões um único minerador podia  controlar 51% da capacidade monetária – Ghash.io é um dos exemplos. A mesma história aconteceu para outros blockchains como o Ethereum, que é basicamente a mais importante pilha de aplicações que utilizamos para desenvolver contratos inteligentes e aplicações: alguns poucos super mineradores controlam as validações e 20% de todo o código do Ethereum, o protocolo, foi escrito por um único programador.

Como você vê o futuro das criptomoedas em longo prazo?

Essa questão se relaciona à visão que eu peguei emprestada de um economista da escola austríaca de economia, Friedriech Hayek, que escreveu um livro chamado “Desestatização do Dinheiro” em 1976. Ele também é vencedor do Prêmio Nobel. Nesse livro, basicamente, ele escreveu sobre o fato de que dinheiro, assim como qualquer outro tipo de commodity que nós temos em nossa sociedade, não deve estar sob o controle de um monopólio, mas sim sob um regime competitivo. Ele esperava que um país pudesse ter um regime com diversas moedas em que os cidadãos pudessem escolher a melhor moeda e o método de pagamento que eles preferissem, ao invés de impor uma única moeda. Por essa perspectiva de Friedrich Hayek, digamos que, com a proliferação desses milhares de criptomoedas, há a possibilidade de ir da teoria pra prática. Eu acredito que dar a possibilidade aos usuários de escolher a forma de pagamento é um grau de liberdade que melhoraria nossa sociedade.

De que forma você vê criptomoedas e moedas tradicionais coexistindo no futuro?

Da mesma forma que qualquer forma de pagamento que temos utilizado desde o passado. Quando os cartões de crédito foram introduzidos nos anos 70, eles não acabaram com o dinheiro em papel – nós ainda utilizamos cédulas, cartões de crédito e alguns usam até mesmo pagamentos móveis, enquanto os mais corajosos utilizam criptomoedas. Todos esses podem coexistir, já que cada um desses meios de pagamento traz diferentes benefícios e pode ser utilizado para diferentes propósitos.

Qual é sua opinião sobre como as regulamentações podem impactar as criptomoedas?

Com certeza, regulamentação é um dos fatores que impulsiona inovação. Nós vimos isso no passado, a regulamentação introduziu novos tipos de produtos no mercado mas, ao mesmo tempo, ela precisa garantir a estabilidade, preservar a estabilidade e proteger os usuários. Existe tensão entre os diferentes objetivos competitivos entre os reguladores e não é muito fácil para reguladores tratar de inovações como moedas digitais ou blockchain. Então, eu acho que existem três tipos de atitudes. Durante a primeira fase, você pode observar que reguladores que realmente ignoram a inovação – eles realmente não se importam, pois o mercado é geralmente pequeno. Quando o mercado começa a se expandir um pouco, a adotar essas inovações e até mesmo expandi-las para outros países, então, da mesma forma que foi com as moedas digitais no passado, os reguladores começam a ir dessa fase inicial de ignorar essas novas tecnologias para uma nova fase de aprender e escutar. Eles começam a aprender, eles passam a se envolver com a comunidade, a falar com a comunidade,. Eles passam a vivenciar isso diretamente e a atender essa nova tecnologia. E então nós temos a terceira fase: a terceira fase é quando essa nova tecnologia cresce bastante e, consequentemente, nessa fase, nessa última fase, reguladores precisam avaliar o risco. Caso haja riscos relevantes, eles precisam impor algumas regras de conduta para que os participantes do mercado comportem-se de forma a conter esse tipo de risco. Nós podemos esperar que, quando a adoção das moedas digitais aumentar, mesmo no futuro, nós veremos um grande impacto das regulamentações na área de moedas digitais. Já no ano que vem, 2019, uma nova diretriz anti-lavagem de dinheiro europeia incluirá corretoras de criptomoedas e carteiras. Esse é o primeiro passo, o que significa que nós estamos saindo da segunda fase de aprendizado e escuta, para a terceira fase da regulamentação de fato.

Como tecnologias como blockchain podem ajudar o sistema bancário?

O blockchain pode agilizar muitos dos processos internos de um sistema bancário em diversas áreas: acordos e depositários são áreas que têm sido discutidas em muitas ocasiões pela comunidade. Existem muitos esforços manuais de reconciliação entre agências de uma mesma instituição bancária, pois os dados são armazenados em bancos de dados diferentes. Além disso, nesse caso apenas, o blockchain pode trazer muitos benefícios, já que eles podem livrar-se da separação dos silos de dados e ter um tipo único de base de dados distribuída em que você não precisa de conciliação. Eu acredito que os benefícios serão enormes para o sistema bancário em geral. Do ponto de vista operacional e do modelo de negócio, eu acho que também haverá algum impacto, o que de alguma forma levará alguns bancos a um novo modelo de negócios.

Muito obrigada pela entrevista. Foi um prazer ter você aqui e obrigada aos amigos do Bankera por assistirem a esse vídeo. Até a próxima!

Conheça nosso time #3 – Paulius Slivinskas

O blockchain está redefinindo diversas áreas e Design é uma delas – designers precisam pensar grande, enfrentar longas curvas de aprendizado e preencher páginas em branco com ideias criativas. Isso ajuda as pessoas a entenderem tecnologias complexas e destaca os benefícios da nova era da FinTech.

Nessa entrevista da série “Conheça nosso time”, nós falamos com Paulius Slivinskas, Coordenador de Design do Bankera e da SpectroCoin, sobre seu papel liderando as equipes de Design e UX/UI, e transformando ideias em ambientes operacionais, funcionais e amigáveis para os usuários.

Conheça nosso time: Paulius Slivinskas - Coordenador de Design

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Conheça nosso time #2 – Advogada Paulina Šliumpaitė

Regulamentação financeira é talvez uma das áreas mais exigentes e dinâmicas que existe. Pode-se esperar ainda mais confusão e complexidade quando falamos sobre FinTech. Essa tecnologia mudou a forma como pensamos a respeito de operações financeiras e bancos digitais mas, principalmente, como entendemos confiança. Especialistas em Compliance e AML/CFT desempenham agora um importante papel ajudando as empresas FinTech nesses novos desafios.

Na segunda entrevista da série “Conheça nosso Time” do Bankera, nós falamos com nossa advogada, Paulina Šliumpaitė, sobre os principais problemas na regulamentação de FinTechs, diferenças em ambientes regulamentares e a importância de políticas de AML (Anti-Lavagem de Dinheiro).

Entrevista com a advogada do Bankera Paulina Šliumpaitė
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